Rúbrica ‘Futuros’ | Os sistemas nacionais de saúde em 2050

Nesta edição da  secção “Futuros”  convidamos a Dr.Marisa Miraldo, Associated Professor in Health Economics no Imperial College  para escrever sobre como pensa que serão os “Os sistemas nacionais de Saúde em 2050”.

Marisa Miraldo, Associate Professor in Health Economics, Imperial College London

O aumento da longevidade foi um dos triunfos do século XX. O grande desafio dos sistemas de saúde é assegurar que esses anos sejam vividos com um certo nível de qualidade de vida, de um modo sustentável à economia. Este desafio tem duas faces: a pressão do lado da procura e um sistema de oferta obsoleto.

Do lado da procura o desafio prende-se sobretudo com a crescente procura por cuidados de saúde que é impulsionada, principalmente, pelo envelhecimento da população e o aumento da prevalência de multi-morbilidade de doenças crónicas associadas com o estilo de vida.

Do lado da oferta o principal desafio reside na inércia na adaptação da prestação de cuidados a estas mudanças.  No contexto do envelhecimento da população e prevalência de doenças crónicas os serviços nacionais de saúde estão obsoletos. Os serviços nacionais de saúde foram historicamente criados principalmente para tratar episódios agudos de doença, centrados na prestação de cuidados hospitalares, em que o principal decisor é o medico e as suas decisões centram-se num modelo excessivamente biomédico.

Quando se fala em serviços nacionais de saúde, e até mesmo sistemas de saúde, inevitavelmente se pensa em doença e na cura da mesma. Este entendimento do papel da oferta está na base da inércia na capacidade de resposta aos desafios atuais e futuros dos sistemas de saúde. Esta inércia repercute-se no aumento da despesa em saúde. Este aumento dos custos é ainda impulsionado pelo investimento em novas terapias, tecnologias e estratégias inovadoras que se centram na cura da doença e não na prevenção da mesma. Este contexto é proporcionado pela fraca afectação de recursos num sistema de prestação de cuidados de saúde frequentemente fechado à mudança (devido aos interesses instalados) e uma estrutura de incentivos que nem sempre recompensa a criação de valor.

Neste enquadramento populacional e epidemiológico global, necessitamos de uma mudança radical de paradigma no que diz respeito à função dos sistemas e serviços nacionais de saúde. No futuro, a razão da sua existência terá que se centrar, obrigatoriamente, em manter ativamente uma população saudável, investindo sobretudo na prevenção primária e secundaria da doença. Nos Estados Unidos 50% da despesa em saúde encontra-se concentrada nos 5% dos mais doentes, e 90% nos 30% mais doentes. Estas estatísticas são comuns a outros países desenvolvidos. Esta subpopulação necessita de novos modelos de prestação de cuidados: necessitam de gestão das suas doenças crónicas, de mais e melhor prevenção secundaria.

Como a maioria das doenças crónicas advém de uma deterioração dos estilos de vida necessitamos de investir mais em prevenção primária.  Temos que investir em gestores da saúde e não só em gestores da doença. Estes gestores têm que forçosamente enquadrar-se  num modelo colaborativo entre profissionais de saúde e população e de responsabilização da população.

Embora esta visão seja consensual, os sistemas de saúde são rígidos, pesados e avessos a mudança nestas áreas. Existem dois aspetos essenciais uma mudança de paradigma para alcançar sistemas de saúde sustentáveis: inovação e liderança.

Sistemas de saúde centrados na cura (e em incentivos para o desenvolvimento de tecnologia e medicamentos centrados na cura) negligenciam o valor de inovações que prometem radicalmente transformar a prestação de cuidados de saúde (novos modelos organizacionais, care pathways, digital health, big data analytics etc.). Não existem atualmente processos formais e transparentes para fomentar a sua adoção e difusão nos sistemas de saúde. Estas inovações são essenciais para a prevenção e gestão da doença e podem servir de alavanca para a mudança de paradigma na prestação de cuidados.

Big data analytics e sistemas de informação permitem mudar radicalmente o modelo da oferta. Entramos numa nova era de medicina de precisão que desafia fundamentalmente a prestação de cuidados médicos tradicional. À medida que a genómica se torna mais sofisticada, abrem-se novas oportunidades na nossa capacidade de prever, prevenir e intervir.  Esta revolução permite uma maior compreensão não só de quem está a risco de desenvolver doenças, mas, sobretudo, abre portas para o desenvolvimento de inovação que permita mitigar esses riscos e otimizar a saúde. Um maior investimento em big data analytics e em machine learning, por exemplo, tornam possível a segmentação do risco como base da prestação de cuidados médicos. São ferramentas essenciais para a identificação dos tais 5% da população e evitar que a sua doença se degrade, através do desenvolvimento de um plano personalizado de cuidados integrados  e continuados a menor custo, com um enfoque na gestão da doença. A genómica permite ainda uma análise mais sofisticada da natureza da doença, e sobretudo uma medicina mais personalizada. Big data analytics  e melhores sistemas de informação permitem também  mudar radicalmente a forma como os sistemas de saúde operam e os seus incentivos. O investimento na recolha e articulação de dados é essencial ao desenvolvimento de métricas de valor tão essenciais  a uma gestão de recursos eficiente por parte dos prestadores e financiadores de cuidados médicos.

Finalmente, e crucialmente, big and smart data permite ainda transformar a relação entre os indivíduos e sua saúde. Na era da epigenética é essencial investir em dados  que capturem não só a doença, mas também o ambiente onde esta se desenvolve, a envolvente do individuo e o modo como ele se relaciona com o mesmo. A recolha e disponibilização de informação personalizada permite não só desenvolver melhores intervenções comportamentais, compreender o desenvolvimento da doença mas, sobretudo, promete capacitar os indivíduos para melhorar a sua própria saúde (através de uma dieta melhorada, exercício ou outras escolhas de estilo de vida). Permite ainda criar ferramentas de apoio a intervenções comportamentais (ex. através do uso de apps, gaming, etc.)  que promovam a população como agentes ativos na prevenção e gestão da doença. Estas apostas são imprescindíveis a sistemas de saúde de alto desempenho.

Por fim necessitamos de liderança para a mudança. Estas inovações não se desenvolvem nem implementam por si só. Formas inovadoras de prestação de cuidados só serão adotadas quando houver uma cultura que abrace a mudança. Se vamos ter uma mudança disruptiva, precisamos de ter campeões dessa mudança. A liderança no desenvolvimento, teste e a adoção de novos paradigmas de prestação de cuidados tem que ser nutrida, formalmente incentivada e integrada na educação formal e planos de desenvolvimento de carreira. Estes campeões e campeãs não têm uma idade nem uma profissão especificas.  Os sistemas de saúde têm que desenvolver um sistema para identificar e recompensar financeiramente as organizações e indivíduos com essa capacidade de liderança.

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